Arquivo para julho, 2012

Comentário no Blog do André Trigueiro

O Jornalista André Trigueiro escreveu sobre o ceticismo, a ciência, o aquecimento global e mudanças climáticas, em seu blog Mundo Sustentável. Aproveitei o mote e comentei seu artigo. (Leia mais)

Veja abaixo o meu comentário.

Caro André,

Ao ler seu pertinente e cuidadoso artigo e os comentários que me antecederam, me ocorrem algumas questões:

Primeiro quanto ao título, acho que além de céticos, somos todos comodistas e pouco solidários com as desgraças alheias.

A crise econômica mundial dos países economicamente “ricos”, fez com que as decisões práticas fossem postergadas, para os próximos anos. Porém, a fome assola o planeta hoje, e QUANTOS HOJE MORRERÃO por não ter o que comer ou sem ter água para beber? Ou por terem sido vítimas de enxurradas ou deslizamentos? A sustentabilidade econômica de uns não é a sustentabilidade vital de outros. São vidas que estão escorrendo por entre as lamas e esgotos e secando a mingua pelos desequilíbrios insustentáveis! Sejam eles econômicos, ambientais e sociais.

O modelo predatório independente de ser na Amazônia ou não, não é uma questão apenas de geopolítica e sim de oiko-política. Da política da casa que nos abriga: a Terra como um todo e não como parte de um país ou de uma região.

A ciência é importante, porém ainda é muito fragmentada e lhe falta muitas vezes a visão sistêmica da qual precisamos para resolver questões hiper complexas como esta.

Precisamos mudar os paradigmas do que se entende e como “produzimos” desenvolvimento.

As cidades estão crescendo de forma predatória, se expandindo horizontalmente sobre os ambientes naturais, cimentando cada vez mais o solo, que antes nos prestava importantes serviços ecossistêmicos de absorção das águas e de substrato para as árvores, que abrigam inúmeras espécies de vida. Resultado: reduzimos árvores, vegetação, aterramos rios e lagoas e transformamos nossas cidades em ilhas de calor cimentadas para enchemos nossas casas de condicionadores de ar que além de consumirem mais energia, utilizam CFC. O modelo de “desenvolvimento” cria necessidades que se concebidas de outra forma poderiam ser naturalizadas, com as sombras, com os ventos, e com a umidificação do ar pelo mar, pelos rios e lagoas, refrescando os ambientes externos e internos das edificações, minimizando o uso de energia e de emissões.

A impermeabilização das cidades, além do aumento da temperatura, agrava os alagamentos, pois reduz a capacidade da natureza absorver os impactos das intempéries, sejam elas extremas ou não, provocadas ou não pelos efeitos das mudanças climáticas. Os serviços ecossistêmicos prestados pela natureza precisam ser considerados no modelo de desenvolvimento.

Não precisamos ir muito longe para ver que, com ou sem emissões de CO2 estamos depredando a Terra e o seu meio natural. Estou com 44 anos e lembro que quando era criança tomava banho no mar de águas limpas, que os corais e arrecifes tinham vida, cores e biodiversidade. Hoje estão morrendo, ficando amarelados e são poucos os peixes que suportaram tais mudanças. Hoje, tomamos banho de mar em meio a sacos plásticos. Isso também é ação do homem, independente dos processos e transformações intrínsecas ao próprio globo terrestre.

Entendo que são processos que se inter-relacionam, e que a ação antrópica pode potencializá-los ou ao menos minimizá-los. Podemos preparar nossas cidades e ocupações populacionais para estarem mais bem adaptadas a tais transformações, sejam elas consequências ou não das mudanças climáticas e do aquecimento global. E os recursos e serviços da natureza também podem ser aliados nesse processo, sem que para isso se precise pagar por eles.

Sinto que cada vez mais precisamos sair do campo teórico e buscarmos soluções práticas mais efetivas. O diagnóstico é importantíssimo, mas precisamos superar esta fase para encontrar COMO FAZER, COMO SOLUCIONAR e COMO GARANTIR QUE MENOS VIDAS SEJAM SACRIFICADAS, em detrimento de quanto$ ganharão com i$$o.

Um abraço e sucesso!

Gisela Santana